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Bom dia Irmã. Eu gostaria de conversar sobre fé, mas antes eu queria saber como é a vida de uma Irmã Carmelita?

– Nossa vida é uma vida de oração. Oração não é exatamente um trabalho, mas também é um fazer. É um trabalho espiritual. Nós acreditamos que Deus faz e que a oração é um modo de se conectar a esse fazer. No geral nós não atendemos as pessoas. As pessoas ligam, escrevem, fazem pedidos de oração. Nós recebemos muitos pedidos de oração todos os dias. Os pedidos são fixados no nosso mural e, então, nós mentalizamos e oramos por aquelas pessoas.

– O que é fé para a Senhora?

– Fé é a substância daquilo que não vemos, como diz a Carta aos Hebreus. É um dom. Não é algo de esforço próprio. Todos nós temos uma sede de felicidade. Muitos procuram saciar essa sede nas drogas, nas coisas materiais. Só que essas coisas materiais não saciam nossa sede de felicidade. Pelo contrário, só geram mais angústia, mais frustrações e mais ansiedade. Em Deus nós encontramos a felicidade. Por isso que a fé é um dos maiores dons. Podemos viver uma vida inteira sem fé, mas uma vida assim não é uma vida plena, não é vida com sentido. A felicidade baseada nas coisas do mundo sempre deixa um vazio. Heidegger dizia que o ser é um ser para a morte, mas nós somos um ser para a eternidade. Se nós vivermos com a perspectiva de que nossas escolhas são para a eternidade – e não para a morte -, nossa vida será muito mais plena de sentido. Santa Terezinha, quando tinha 15 anos de idade, dizia para seu irmão: “Rodrigo, é para sempre!”

– Quais são os outros dons importantes?

– Fé, esperança e amor são as três grandes virtudes da vida. Uma não existe sem a outra. Um amor verdadeiro só existe com fé e esperança. Assim também a esperança: ela só é verdadeira se estiver acompanhada da fé e do amor.

– Irmã eu percebo que vocês leem muito aqui no claustro…

– Não tanto quanto gostaríamos (risos).

– E como você entende a relação entre fé e razão?

– Fé e razão andam juntas. A fé sozinha, sem a razão, vira fundamentalismo. A razão sozinha, sem fé, vira imanentismo, vira materialismo. Nosso mundo e nossa vida não se resume só no aqui e no agora, só no imanente, no material. Nós também temos passado e temos futuro, temos o transcendente, temos o imaterial, o espiritual. O segredo está no equilíbrio entre fé e razão.

– Isso explica a questão atual da intolerância religiosa e o sofrimento das comunidades islâmicas por causa de alguns fundamentalistas.

– Com certeza eles estão sofrendo muito com isso. Por causa do fundamentalismo de uns poucos, uma nação inteira está sofrendo. Isso é muito triste.

– Queria fazer uma pergunta pessoal agora, se a Senhora não se importar em responder: como aconteceu a decisão de se tornar uma Irmã Carmelita?

– A escolha para ser Carmelita é um processo longo. Há um ritual bastante complexo, um período de formação e um período de amadurecimento para se ter certeza da vocação. Eu entendi minha vocação muito jovem. Vocação é um chamado. É um chamado natural e espiritual ao mesmo tempo. Decidi ser Carmelita porque as coisas do mundo eram poucas para mim. Eu queria mais. E sabia que minha felicidade plena só seria possível em Deus. As coisas do mundo eram insuficientes para minhas exigências de felicidade. Há 32 anos sou Irmã Carmelita.

– Você é feliz?

– Muito feliz! Nós temos uma rotina intensa de orações, estudos e trabalhos. Temos períodos diários de silêncio absoluto e orações mentais. Mas é uma rotina bem equilibrada. As Irmãs vivem em média 92 anos. A gente se diverte muito também. Há muita alegria aqui dentro. Há um ditado que diz: se a alegria desaparecer do mundo, procurem nos conventos das carmelitas que com certeza ela vai estar lá.

Irmã Carmelita…

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