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Política: Precisamos conversar sobre coxinhas

Coxinhas e política

Coxinhas e política

Tenho percebido, com tristeza e certa resignação, que alguns setores sociais têm se utilizado da coxinha com finalidades escusas, pretendendo expor ao escárnio uma opinião política oposta e ridicularizar tanto a opinião divergente quanto esta iguaria da culinária mais simples e popular.

Apesar de não ser o mais apto para falar de política sou, seguramente, o mais apto para falar sobre coxinhas. Digo isso porque, além de apreciá-las, sei como prepará-las, conheço o processo, o ponto da massa, a quantidade de recheio para que ela se feche sem desmontar, a farinha de rosca por fora para formar aquela casquinha crocante. Existem poucas unanimidades na vida, meu caro. Mas digo que entre essas poucas unanimidades estão as coxinhas e os torresmos. Não torça o nariz, não se renda à onda de gourmetizações e dietas de comidinhas low carb. Você sabe que, aí no seu íntimo, reside esse sujeito que adora coxinhas.

Essas pequenas radicalizações das dietas criam padrões de comportamento muito curiosos e excludentes. Sujeitos que não saem com os amigos e, se saem, não bebem, não comem… Para eles os outros são selvagens que não se cuidam. Para estes selvagens, no entanto, aqueles outros, os fitness, são radicais demais e não se divertem. Pobres coxinhas. Dividem os amigos numa mesa, onde deveriam rir e relembrar as suas boas histórias e façanhas, ficam se regulando e medindo, recriminando e apontando uns aos outros.

Assim são as coxinhas, também, em relação à política, onde os argumentos se revestem do mesmo maniqueísmo. Ou você está do lado de cá, ou do lado de lá. Os pensamentos se excluem e repelem com fervor. As discussões virtuais, então, são um campo de batalha. Do conforto de suas casas, diante do computador, todos têm enormes coragens e são grandes juristas e historiadores.

Mas existem tantos perigos nessas discussões radicais. Quanta patavina se diz e se eterniza nos meandros virtuais, nas suas redes sociais e nos comentários de fotos e posts. Os argumentos têm a profundidade de um pires. Descambam para ofensas pessoais, às vezes. Querem alguns exemplos? Vamos lá:

“Você quer falar de corrupção? Vamos falar sobre as suas corrupções, então”… Esses assuntos são interessantes. O que se observa é que, para estes, todos são corruptos, por essência, em suas mínimas trapaças diárias, em todos os seguimentos da sua vida. Ora, se você é corrupto, não pode apontar as corrupções dos políticos! Esse argumento me espanta. Ele funciona como uma faixa de censura, não como argumento. Ele cala, e não convence. Se, para falar sobre política, tivermos que atingir um padrão de perfeição tal, seremos todos monges, e não cidadãos. Ninguém é perfeito, mas nem por isso devemos nos calar diante dos escândalos de corrupção, das desonestidades institucionalizadas.

“As manifestações são feitas por uma elite branca”. Haja elite branca para encher as avenidas e praças em boa parte do Brasil, não? A dimensão das manifestações quebrou o argumento do Governo de que os insatisfeitos são uma minoria endinheirada. Em todos os setores da sociedade e em todas as classes há insatisfação, como também há aqueles satisfeitos com os rumos do país.

“Discurso de ódio”. Este argumento tem se pulverizado às cheias por aí. O discurso de ódio é um discurso de intolerância, de falta de diálogo, de maniqueísmo cego. Tenho observado focos desses discursos de todos os lados, entre os que se eximem e os que tentam calar as opiniões diversas, entre os que ridicularizam as manifestações pacíficas em um Estado Democrático. Quer um exemplo de discurso de ódio? Apontar que as buzinas e panelaços vêm das varandas gourmet da elite branca. Este, sim, é um discurso perigoso e odioso.

Deixe que eu me explique melhor, vamos falar sobre as varandas gourmet. Os edifícios mais modernos têm adotado essa artimanha arquitetônica (em grande parte inútil), uma varanda com uma pequena churrasqueira e uma pia. Está longe do ideal de uma área de lazer, é apenas um espaço a mais. Quem tem adquirido esse tipo de imóvel é a classe média, que cresceu e se estabilizou nos últimos anos e nos últimos governos. Essa mesma classe, no entanto, tem se sentido esmagada. É sobre essa classe que pesa a alíquota do imposto de renda, distorcida pela inflação acumulada, é sobre essa classe e sobre os mais pobres que pesa a inflação. Não, não se trata de uma elite. A elite ocupa outros espaços, poucas mansões, poucas casas de praia com barcos, poucas casas de inverno com lareira. Você, meu caro, acha que a elite quer assar carne no aperto de uma varanda? Não, é apenas discurso de ódio mesmo.

Outros exemplos, de outro lado… “A culpa não é minha, eu votei no candidato tal…”. Amigo, você precisa relembrar os conceitos de Democracia. O resultado é para todos, para os que ganham e para os que perdem. E você é responsável pela vitória e pela derrota do seu candidato ou de outro. O ambiente democrático deve se pautar pelo diálogo profundo e sério, e não em argumentos de “lavo minhas mãos”, ou “não tenho culpa”.

Mas, vamos deixar o melhor de tudo para o final, entre as viúvas dos generais, ou entre as altas patentes reformadas, entre os mais saudosos amigos do clube militar e, é claro, entre um e outro radical sem informação surge o saudosismo da ditadura. Resumindo numa frase: “Intervenção militar”. Isto não é argumento, é um erro. Felizmente esse tipo de ideia não está assim tão disseminada. Trata-se, sim, de uma minoria. Essa minoria, no entanto, precisa urgentemente ler, estudar e se informar.

Nossa ordem jurídica fulmina de inconstitucionalidade qualquer ato contrário à Democracia. É por isso que esse argumento causa tanto arrepio àqueles que conhecem o Direito. Mas, de fato, não são todos que o conhecem, são poucos os que entendem, por exemplo, o mecanismo que poderia desencadear um impeachment e suas consequências.

Outros argumentos sem “pé nem cabeça” surgem por aí e, de tão absurdos, sequer merecem destaque. São aqueles que refletem não os grandes temas atuais, mas os medos da minha bisavó, como o comunismo. Num país em que a propriedade privada é direito fundamental, em que a livre iniciativa é constitucionalmente garantida é difícil imaginar que esse temor seja fundado.

Caso o debate se pautasse em discussões mais sérias e menos radicais, o ganho seria enorme. As paixões cegam os argumentos, e transformam o debate em briga. Felizmente, as manifestações do domingo se deram num ambiente pacífico e sério em sua ampla maioria. Apesar de hostilizadas por alguns grupos e setores, essas manifestações representam uma retomada do processo de amadurecimento da Democracia, que não acontece apenas em ano eleitoral.

Mas, enfim… As discussões políticas têm sido tão radicais, rasas e desgastantes, que prefiro não falar a respeito. Por isso só escrevo sobre culinária. Deixo, aqui, o meu respeito e admiração pelas coxinhas.

Bon appétit!

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Ricardo Lima
Ricardo Lima é Graduado em Direito e Professor

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