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Amenizando os conflitos na adolescência

A adolescência constitui uma etapa decisiva no processo de desprendimento da família. Nesse movimento de conquista de independência e autonomia, o jovem volta-se para o meio social e apoia-se no seu grupo de iguais. Nessa fase, a família já não é mais o centro de suas atenções. É comum, durante esse processo, que o jovem apresente maior rebeldia em relação à autoridade em geral. Nessa etapa da vida, as regras costumam ser questionadas e até mesmo contestadas por ele, o que é necessário para o desenvolvimento da sua identidade.

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Assim, é inevitável que todo o sistema familiar seja atravessado por esse processo desenvolvimental do filho adolescente, sendo então necessários ajustes para integrar essas mudanças de maneira saudável à convivência de toda a família. Nesse sentido, a principal tarefa dos pais nesse momento evolutivo é aumentar a flexibilidade das fronteiras familiares a fim de integrar os movimentos de independência dos filhos.

Esse é um processo que demanda profundas transformações, principalmente no que se refere à comunicação estabelecida na família. O contexto passa a ser extremamente importante para que ocorra uma conversa bem sucedida entre pais e filhos. Estudos indicam que a autoestima, o bem-estar e os tipos de estratégias empregadas pelos adolescentes são variáveis que estão diretamente relacionadas com uma comunicação familiar eficaz. Observa-se, entretanto, que começa a existir nessa etapa um cuidado dos filhos em filtrar as informações antes de contar aos pais, como parte do processo de autonomia e de preservação do seu espaço pessoal.

A partir das diferentes estratégias de comunicação, do conteúdo expresso nas conversas entre pais e filhos e da dinâmica de funcionamento familiar, Ríos-González (1994) caracterizou três diferentes formas de comunicação: a comunicação aberta, a superficial e a fechada. Nas famílias cujos membros podem manifestar seus sentimentos e questionamentos sem se sentirem ameaçados, provavelmente existe uma comunicação aberta, profunda, responsável e afetiva. Nesse sentido, quanto menor for o nível de desacordo entre pais e adolescentes, melhor se dará o desenvolvimento das relações familiares.

Nas famílias com fronteiras rígidas, a dificuldade de comunicação entre pais e filhos costuma ser mais frequente, pois os jovens acabam por não confiar em seus pais, os quais se mostram incapazes de perceber as mudanças em seus filhos adolescentes. Esses pais buscam constantemente provas da responsabilidade do filho, mas não conseguem dialogar abertamente e orientá-los quanto às dúvidas que surgem nesta fase do desenvolvimento.

Entre as variáveis otimizadoras e obstaculizadoras da comunicação familiar, encontram-se as diferenças de gênero. Pesquisas apontam que ambos os pais sentem maior dificuldade na comunicação com os filhos do que com as filhas.

Os adolescentes, por sua vez, quando comparam o relacionamento com seus pais, afirmam ser comumente mais próximos de sua mãe, revelando mais suas vivências íntimas para ela, além de falarem sobre uma variedade de assuntos mais que com o pai. Sendo assim, os adolescentes relatam preferir suas mães para conselhos e orientação e acreditam que elas são mais abertas e iniciam mais as conversas, aceitando as opiniões dos filhos.

Dessa maneira, nosso bate-papo aqui tem como objetivo conhecer as estratégias de comunicação utilizadas pelos adolescentes com seus pais. Essa compreensão pode auxiliar no entendimento das relações familiares, bem como na otimização dos níveis de proximidade entre pais e filhos. Continuaremos no próximo artigo indicando as estratégias.

Estratégias e ações

 Os adolescentes possuem estratégias claras de comunicação com seus pais, principalmente quando necessitam de alguma aprovação ou consentimento deles. Dentre os métodos utilizados, estão ações como escolher o momento oportuno para comunicar assuntos mais difíceis, como um episódio de fracasso escolar, por exemplo. Além disso, o humor dos pais também é levado em consideração por eles na escolha do momento certo para falar

Além disso, os adolescentes percebem que existem formas diferentes para comunicar determinado assunto, sendo que algumas são mais eficazes que outras, conforme o contexto. O jeito de falar é definido por eles como sendo importante, na hora de dialogar com os pais. Nesse sentido, alguns preferem falar aos poucos, com cuidado, enquanto que outros preferem falar abruptamente. O que deve predominar na comunicação entre pais e filhos, contudo, é uma certa sensibilidade por parte do jovem em adequar a forma de comunicar-se a fim de lograr maior êxito em se expressar em casa

Algumas estratégias utilizadas pelos adolescentes revelam comportamentos típicos da fase desenvolvimental em que eles se encontram, como no caso da chantagem, da insistência, da mentira e da omissão. O cuidado que os filhos têm nessa idade em filtrar as informações antes de contar aos pais é muito grande. A escolha dessas estratégias evidencia uma luta constante pela autonomia desejada por eles. Há a importância da comunicação como expressão desse processo de construção da identidade do jovem no seio de sua família. Nesse sentido, pode-se pensar que o sistema familiar mobiliza-se nesse período pela necessidade de adaptação frente a essa nova fase, em que os filhos já não são mais crianças. Evidencia-se aí a necessidade de que haja uma flexibilização das fronteiras familiares nessa fase evolutiva, a fim de que a família seja capaz de integrar os movimentos de independência dos seus filhos

A necessidade de se fazer trocas com os pais revela que o adolescente está evoluindo para uma posição adulta, tentando, gradativamente, conquistar sua liberdade. O sistema familiar, então, deve possibilitar e permitir essas modificações, sendo que a autoridade parental deve ser atenuada, porém jamais extinta. Nesse caso, o entendimento das transformações que ocorrem na relação de pais e filhos nesta fase do desenvolvimento são importantes na definição de um bom relacionamento familiar. Quando os pais permitem que seus filhos tenham espaço para a sua individualização e a tomada de atitudes, eles estão facilitando o estabelecimento de uma boa comunicação e auxiliando estes adolescentes a tornarem-se adultos autônomos. Quanto menor o nível de desacordo entre pais e filhos adolescentes, melhores serão os níveis de desenvolvimento das relações familiares.

Outra estratégia bastante utilizada é a escolha do genitor para conversar. Nesse caso, parece que a escolha se baseia no tipo de demanda que eles têm dos progenitores. Quer dizer que, dependendo do assunto, preferem falar com o pai, normalmente, quando necessitam de dinheiro. As mães tendem a ser mais solicitadas pelo jovem quando ele deseja pedir algum conselho. Porém, em alguns casos, o jovem mostra preferência por um dos pais para comunicar os assuntos que deseja. Nesse sentido, o que normalmente ocorre é a escolha do genitor do mesmo sexo, já que o adolescente parece acreditar que, dessa maneira, será melhor compreendido.

Geralmente, os irmãos e os tios atuam como mediadores na comunicação dos participantes com seus pais. A partir desta constatação, pode-se pensar que a comunicação sofre transformações na família nessa fase evolutiva, pois, como o jovem passa a requisitar, também, os elementos da família extensa, há uma tendência à ampliação da rede familiar

Todos os jovens demonstram motivação e voluntariaram-se para refletir sobre o tema proposto. Provavelmente, por esse motivo pode-se pensar que esses adolescentes atribuem importância para as estratégias de comunicação que utilizam a fim de facilitar o relacionamento entre os membros e preservar a boa convivência familiar.

Peterson Beraldo
Peterson Beraldo é Pedagogo, especialista em Gestão Educacional, Psicologia e Espiritualidade, Filosofia, Sociologia e Psicopedagogia. Professor de Ensino Religioso e Sociologia, e Orientador Educacional no Colégio São José.

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